Enxaqueca

A enxaqueca é uma doença neurológica crônica, caracterizada por crises recorrentes de dor de cabeça moderada a intensa, geralmente pulsátil e unilateral, que pode durar de horas a dias e costuma vir acompanhada de outros sintomas como náuseas e sensibilidade a luz e sons.

Mais do que uma simples dor de cabeça, a enxaqueca envolve uma disfunção do sistema nervoso central, com alteração no processamento da dor, ativação do sistema trigêmino-vascular e liberação de neuropeptídeos inflamatórios. Trata-se de uma condição multifatorial, influenciada por fatores genéticos, hormonais, ambientais e comportamentais.

A enxaqueca crônica é definida pela presença de:

  • Dor de cabeça em 15 ou mais dias por mês,

  • Por mais de 3 meses,

  • Sendo que pelo menos 8 dias por mês apresentam características de enxaqueca.

Está associada a maior incapacidade funcional, pior qualidade de vida e maior risco de uso excessivo de analgésicos. A cronificação da enxaqueca está relacionada à sensibilização central, alterações persistentes das vias da dor e falha no controle adequado das crises. 

Os sintomas da enxaqueca variam entre os pacientes, mas os mais frequentes incluem:

  • Dor pulsátil, geralmente unilateral

  • Intensidade moderada a forte

  • Piora com atividade física

  • Náuseas e/ou vômitos

  • Sensibilidade à luz (fotofobia) e ao som (fonofobia)

Alguns pacientes apresentam aura, caracterizada por sintomas neurológicos transitórios, como alterações visuais, sensitivas ou da fala, que precedem ou acompanham a crise de dor. 

O diagnóstico da enxaqueca é clínico, baseado na história detalhada do paciente e nos critérios da Classificação Internacional das Cefaleias (ICHD-3).

Exames de imagem não são obrigatórios para o diagnóstico, mas podem ser solicitados em situações específicas, especialmente se sinais de alarme como:

  • Mudança no padrão da dor

  • Dor súbita, descrita como "pior dor da vida"

  • Início da dor após 50 anos de idade

  • Sinais neurológicos associados

  • Associadas a sintomas sistêmicos como febre, vômitos em jato, papiledema, crises epilépticas, alteração da consciência

Nesses casos, podem ser indicados ressonância magnética ou outros exames conforme avaliação médica.

Enxaqueca crônica

Diagnóstico e exames complementares

A Medicina da Dor atua tanto no tratamento das crises quanto na prevenção (profilaxia) da enxaqueca. O tratamento preventivo é indicado quando o paciente apresenta:

  • 4 ou mais dias de enxaqueca por mês,

  • Crises muito intensas ou incapacitantes,

  • Falha ou contraindicação ao tratamento das crises,

  • Enxaqueca crônica,

  • Uso frequente de analgésicos, com risco de cefaleia por uso excessivo de medicação.

O tratamento da enxaqueca pode incluir medicações, procedimentos, mudanças de estilo de vida...

Tratamento farmacológico

  • Medicamentos para crises como analgésicos simples, anti-inflamatórios e triptanos

  • Medicamentos para prevenção como topiramato, ácido valpróico,

    propranolol, amitriptilina e venlafaxina

  • Terapias com anticorpos monoclonais anti-CGRP, injeções 1x por mês ou a cada 3 meses

Tratamentos não medicamentosos

Como tratar?

Além das medicações via oral, temos outros tratamentos que podem ser usados como alternativas ou em associação. A vantagem desses procedimentos é que não possuem os efeitos sistêmicos das medicações, sendo melhor tolerados. 

Tratamento não farmacológico

  • Acupuntura - modula a percepção de dor, relaxa a musculatura, modula o sistema nervoso autônomo, melhora sintomas como insônia e ansiedade comumente associados às enxaquecas.

  • Bloqueio de nervos occipitais - Os nervos occipitais compartilham conexões com o sistema trigêmino-cervical, uma região do sistema nervoso onde informações dolorosas da cabeça e da região cervical se juntam. Quando essa via está hiperativada, como ocorre na enxaqueca, há aumento da sensibilização e perpetuação da dor. Bloqueando esses nervos conseguimos diminuir frequência e intensidade das crises.

  • Protocolo PREEMPT - aplicação de toxina botulínica (botox) em pontos específicos da cabeça, testa, têmporas, nuca e ombros, realizadas a cada 12 semanas. Também diminui frequência e intensidade das crises e pode ser usado como tratamento profilático. 

Referências

  1. Headache Classification Committee of the International Headache Society. The International Classification of Headache Disorders, 3rd edition (ICHD-3). Cephalalgia, 2018.

  2. Ashina M, et al.Migraine pathophysiology and its clinical implications. The Lancet Neurology, 2021.

  3. Silberstein SD, et al. Evidence-based guideline update: Pharmacologic treatment for episodic migraine prevention. Neurology.

  4. American Headache Society (AHS). Consensus Statement on Migraine Prevention. 2021–2023.

  5. Linde K, et al. Acupuncture for the prevention of episodic migraine. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2016.

  6. Zhang N, et al. Acupuncture for migraine: A systematic review and meta-analysis. Pain, 2022.

  7. Giovanardi CM, et al. Acupuncture versus pharmacological prophylaxis of migraine: A systematic review of randomized controlled trials. The Journal of Pain, 2020.

Um tratamento para além de "controlar as crises"

O cuidado começa pelo entendimento profundo da sua história, dos seus gatilhos, da frequência das dores e de como a enxaqueca impacta a sua vida, seu trabalho, seus relacionamentos e o seu bem-estar emocional. Eu sei que viver com enxaqueca muitas vezes significa cancelar planos, trabalhar com dor, sentir culpa por não dar conta e passar anos tentando tratamentos que não funcionaram. Minha missão é ajudar você a retomar a sua rotina, sua autonomia e sua qualidade de vida, para que a dor deixe de ser o centro da sua vida.

Aqui você será acolhido, com avaliação médica completa, rastreio de fatores associados e uma proposta terapêutica construída em conjunto, que pode incluir:

  • Tratamento medicamentoso, tanto para crises quanto para prevenção, quando indicado

  • Acupuntura e outras estratégias para modulação da dor e redução da frequência das crises

  • Bloqueios como bloqueio de nervos occipitais ou protocolo PREEMPT com uso de toxina botulínia são opções na falha do tratamento com medicamentos ou para pacietes que não toleram as medicações.

  • Orientações sobre estilo de vida, sono e gatilhos

O objetivo do tratamento não é apenas ter menos dor, mas devolver a você uma vida em que a enxaqueca não seja uma limitação.